Cenários

Cenários são como sondas para o futuro. Seu valor está em sensibilizar os executivos para possibilidades que eles dificilmente perceberiam de outra forma. Cenários reduzem as chances de surpresas indesejáveis e capacitam os executivos a tomar melhores decisões, em melhor timing.
Oscar Motomura

Ainda são poucos os executivos que perguntam-se uma questão fundamental: "Queremos ou não controlar nosso próprio futuro ?"Para aqueles que respondem afirmativamente, Cenários têm um valor incalculável.

O propósito essencial de cenários é apresentar aos executivos uma imagem significativa de futuros prováveis, em horizontes de tempo diversos. A partir dos cenários os executivos podem projetar o inter-relacionamento de sua organização com o ambiente daqui há alguns anos. Eles podem, também, projetar formas de alterar esse relacionamento, visando assegurar um posicionamento mais favorável da empresa no futuro.

É importante que se faça uma distinção clara entre cenários e previsões. Freqüentemente previsões não passam de simples extrapolações de tendências. Cenários por sua vez, são sistemas complexos, que buscam revelar sinais precoces de alterações do futuro.

Mas, o que constitui um "bom" cenário ?

1. Bons cenários afetam o julgamento dos executivos sobre como o futuro deve ser. Muitas vezes cenários são desenhados para serem profecias auto-realizáveis (positivas ou negativas). Por isso, a arte de preparar e interpretar um cenário é apenas o primeiro passo para alterar o futuro.
2. Bons cenários reconhecem que ainda que passado e presente sejam importantes no estabelecimento de direções para o futuro, o objetivo de executivos é transformar as tendências, o que requer visões de um futuro radicalmente diferente. Em outras palavras, eles levam em conta a dinâmica do futuro e o poder de ação humana para molda-lo.
3. Bons cenários permitem a tradução de declarações sobre o futuro em insights sobre riscos/probabilidades para o tomador de decisões. Cenários de qualidade guiam os executivos em "cálculos" mentais sobre o que pode acontecer e as inter-relações entre os fatos e suas decisões.
4. Bons cenários testam todos os elementos de um sistema mais amplo e suas interações com o ambiente. Por isso, eles levam em conta, de forma abrangente e equilibrada, aspectos econômicos, tecnológicos, sociais, políticos, psicológicos, culturais, espirituais, etc.
5. Bons cenários oferecem descrições tão vívidas do futuro que os executivos podem colocar-se na situação de compreender esse futuro de uma maneira que não seria possível apenas por meio de números e gráficos. Algumas vezes até artistas são utilizados para dotar cenários dessas qualidades.
6. Bons cenários dão "pistas" que podem ser verificadas anos antes da ocorrência dos eventos que elas sinalizam. Essa é uma diferença fundamental entre cenários de qualidade e meras especulações futurísticas sem fundamento.
7. Bons cenários são resultado de reflexões de pessoas com referenciais intelectuais, culturais e sociais diversos. A diversidade de opiniões assegura a riqueza dos futuros idealizados e dá margem aos executivos para optar pelo futuro que eles desejam construir.

MOTOMURA, Oscar. Coletânea Cenários. São Paulo : Amana Desenvolvimento e Educação, 1990.

Para se ter uma visão prospectiva dentro do horizonte definido, duas opções são possíveis para se utilizar Cenários em Planejamento:

a. construir um "Cenário de Referência" específico para sua empresa ou para o setor de sua atuação, ou
b. utilizar os Cenários disponíveis e chegar ao "Cenário Referência".

Se a organização tiver interesse em utilizar um Cenário específico, poderá consultar "fornecedores de cenários" tais como:

Cenários Políticos

Cenários Tecnológicos

1. Alexandre Barros
Prof. da U.N.B.
Brasília
1. Programa de Estudos do Futuro
Prof. Ruy Aguiar da Silva Leme
Instituto de Administração da USP
2. Goes, Piquet e Lobo
Brasília
2. Meta Tech Estratégias Tecnológicas
Brasília
3. Said Farhat
Semprel – Brasília
4. Carta Política – Elementos para Decisão Política e Econômica
Editora Conjuntura Ltda. - São Paulo

Cenários Econômicos

Cenários Mercadológicos

1. Macrométrica Pesquisas Econômicas
Rio de Janeiro
1. Business International do Brasil
Subsidiária da The Economist
James Wygand
São Paulo
2. Hedge Consultoria Econômica Ltda.
Belo Horizonte
2. IPPM – Instituto Paulista de Pesquisa de Mercado
Antônio Leal - São Paulo
3. Indicadores Antecedentes
AMR. Editora Ltda. - São Paulo
4. Suma Econômica
São Paulo

Outra opção é utilizar os vário Cenários disponíveis, como o do BNDES "Cenários para a economia brasileira até o ano 2000" ou de publicações especializadas como as revistas Cenários, Suma Econômica e os boletins da Macrométrica, Indicadores Antecedentes, etc., e chegar ao "Cenário Referência" para o planejamento da sua empresa.

Algumas empresas utilizam como Cenário Referência publicações técnicas e livros significativos como os de Toffler e Naisbitt. Apresentamos a seguir os Cenários apontados pelo livro "Megatrends 2000", de John Naisbitt e Patricia Alburdene.

As megatendências

A nova década dá início a uma nova era. Um período de assombrosas inovações tecnológicas, oportunidades econômicas sem precedentes, surpreendentes reformas políticas e intenso renascimento cultural. Uma década como nenhuma das anteriores, culminando no milênio, o ano 2.000.

Concebidas sob a influência do próximo milênio, as tendências mais importantes da década de 90 são os portões de entrada para o século 21. As megatendências não surgem e desaparecem de uma hora para outra. São mudanças sociais, econômicas, políticas e tecnológicas que se formam lentamente e uma vez estabelecidas, nos influenciam por algum tempo - entre sete e dez anos, ou até mais.

Aqui são apresentadas dez novas megatendências em relação às quais será possível conectar as informações que fluirão de forma cada vez mais acelerada nos anos 90. São megatendências que influenciarão elementos importantes da vida de cada pessoa, suas decisões quanto à carreira e emprego, suas escolhas em termos de viagem, negócios e investimentos, lugar onde residir e educação dos filhos. Para obtermos o máximo desta extraordinária década precisamos estar conscientes das mudanças que estão ocorrendo a nossa volta.

1. A explosão econômica global na década de 90

Na década de 90, o mundo entra num período de prosperidade econômica ocasionado por uma extraordinária confluência de fatores. A mais impressionante mudança é a velocidade com que caminhamos para uma economia única. As forças econômicas do mundo estão ultrapassando as fronteiras nacionais o que resulta em mais democracia, mais liberdade, mais comércio, mais oportunidades e mais prosperidade.

Uma única economia. Um único mercado. Esse é o próximo nível natural da história econômica da civilização. Durante séculos tivemos uma coleção de nações-estados macroeconômicas, em grande parte auto-suficientes economicamente. Dentro das nações-estados as tarefas com o passar dos anos foram sendo divididas. Hoje já estamos avançados no processo de distribuir tarefas econômicas entre nações e nos dirigimos à interdependência que isso implica.

Na economia global as considerações econômicas quase sempre transcendem às considerações políticas porque, com relações econômicas em ascensão os principais executivos das empresas de um país são com freqüência, mais importantes do que as figuras políticas. Na economia global, presidentes, primeiros ministros e parlamentos tornam-se cada vez menos importantes. A principal tarefa deles, no âmbito internacional, passa a ser a de realinhar estruturas políticas para facilitar a globalização de todas as economias.

Livre Comércio

Para uma economia global funcionar será preciso um comércio completamente livre entre nações. E isso já começa a acontecer.

m
O acordo de 1988 entre EUA e Canadá derrubou todas as barreiras comerciais. Tratados semelhantes serão firmados com o México em seu devido tempo.
m
Em 1992 todas as barreiras comerciais serão derrubadas entre as 12 nações da Comunidade Econômica Européia.
m
Austrália e Nova Zelândia desde 1988 têm acordo de livre comércio.
m
Brasil e Argentina trabalham para um acordo de livre comércio, o que dará início a um mercado comum sul-americano.
m
Desde 1988 circulam versões sobre um acordo de livre comércio entre Japão e Estados Unidos, algo impensável apenas alguns meses antes.

Telecomunicações

Estamos caminhando nas telecomunicações para a formação de uma rede mundial única. Aproximamo-nos do dia em que teremos capacidade de comunicar qualquer coisa a qualquer pessoa em qualquer lugar de todas as formas - voz, dados, texto e imagem - à velocidade da luz.

Reforma Tributária

Num mundo muito competitivo, taxas de imposto de renda mais baixas estimulam as pessoas a trabalharem mais e a serem mais corretas na sua declaração. A longo prazo essa política resulta em mais e não menos imposto recolhido pelos governos.

Diminuição de Tamanhos

Uma diminuição de tamanhos de bens chamada de "downsizing of economic output" facilita e torna cada vez mais eficiente a comercialização. Os produtos tornam-se menores, mais leves, mas também mais eficientes e eficazes. Quanto mais se reduz o peso e o volume dos bens mais fácil fica seu transporte entre nações.

Inflação e Juros

A inflação será contida em função de maior competição mundial por preço e qualidade, constituindo um novo fenômeno. Da mesma forma, as taxas de juros serão contidas em função de um volume suficiente de capital no mundo e pela competição mundial pelo "aluguel" de dinheiro e em termos de seu "pricing".

Explosão de Consumo na Ásia

Os asiáticos serão os grandes consumidores dos anos 90. Durante a década 80 milhões de consumidores serão agregados nos países asiáticos mais ricos, contra cerca de 10 milhões na Europa, representando grandes oportunidades para países produtores.

O Avanço da Democracia

A mudança global de regimes autocráticos para democracias constrói a base política para o crescimento econômico. A democracia é de longe o melhor contexto para o fomento empreendedor individual.

Paz e não Guerra

As pessoas em toda parte começam a perceber que a guerra é agora uma forma obsoleta de solucionar problemas. Entre os 44 países mais ricos do mundo não há guerras desde 1945. Os conflitos regionais na década de 90 não envolverão muito as superpotências. Parece claro agora que os anos 80 foram um década em que as economias se tornaram mais importantes que as ideologias. Essa nova visão mundial libera dólares, talento e energia que estavam sendo canalizados para a corrida armamentista

Ambiente

A preocupação do mundo com a defesa e a guerra fria está diminuindo e sendo substituída pelas considerações sobre a destruição do nosso ambiente natural, agora nosso mais importante problema comum.

Economia de Altos Salários

Durante os anos 90 os trabalhadores qualificados e de elevado nível educacional da era da informação, ganharão os mais altos salários da história. Quanto mais a economia de informações evoluir melhores serão os empregos e maiores os níveis de remuneração.

Renascimento das artes

Nestes anos que precedem o final do milênio haverá uma mudança fundamental e revolucionária nos hábitos e prioridades de gastos das pessoas em termos de lazer. As artes substituirão gradualmente os esportes como atividade básica de lazer da sociedade.

Até agora no século XX a alta tecnologia e a industrialização vinham substituindo seres humanos por máquinas. Com o fim das guerras grande parte da humanidade se vê livre para refletir, para explorar o que significa ser humano. As implicações econômicas desta busca espiritual são desconcertantes. O moderno renascimento das artes visuais, poesia, dança, teatro e música contrastará com a recente era industrial em que o militar era o modela e os esportes a metáfora.

Nos Estados Unidos a iniciativa privada financiará esta mudança histórica. As empresas que já são o principal patrocinador de arte nos Estados Unidos em breve começarão a abandonar os esportes e cada vez mais se voltarão para as artes para definir suas imagens e vender seus produtos. As empresas ganharão mais prestígio entre consumidores sofisticados apoiando as artes do que simplesmente apregoando seus produtos. Os empregos em empresas no campo artístico estão aumentando de forma impressionante. O teatro Broadway de Nova York já vende mais entradas do que o time de beisebol dos Yankees e dos Mets juntos. Nas temporadas de 1957 e 1988 mais de 25 milhões de pessoas assistiram aos espetáculos das 230 principais orquestras sinfônicas americanas. Um em cada 5 adultos americanos compra pelo menos um livro por semana, ficar em casa com um bom livro está voltando a ser uma das formas preferidas de lazer dos americanos.

Em termos relativos, hoje há mais pessoas do que nunca colecionando arte. O Japão tem 4.000 galerias de arte. Cerca de 6.000 consumidores passam por dia pela casa leiloeira Pans Drouout. Quatro milhões de pessoas visitaram o Centro Pompidou no seu primeiro ano de existência.

Na Grã-Bretanha as artes são uma indústria de 17 bilhões de dólares, do mesmo tamanho da indústria automobilistica.

A medida em que as artes se tornam mais importante na sociedade, indivíduos, empresas e cidades cada vez mais decidem seu destino sob a influencia de imagens, personalidades e estilo de vida do meio artístico. Vídeo cassetes, toca fitas em automóveis, aparelhos walkman e toca discos laser transferem para a mãos do próprio telespectador ou ouvinte o poder de controlar o quer ver e ouvir. O setor de vídeos culturais vem mantendo um crescimento de 15 a 20% ao ano. Em 1993 a televisão a cabo atingirá 50% das famílias. No final da década de 80 o apoio das empresas aos museus e exposições aumentou substancialmente num reconhecimento de que as artes podem ajudar as empresas a moldar sua imagem. O patrocínio das empresas para as artes continuará a crescer vertiginosamente na próxima década.

ƒ A emergência de um socialismo de livre mercado

Os resultados da transformação do socialismos começarão a aparecer de forma mais clara durante os anos 90. A última década do século será palco de um período extraordinário de experimentações para salvar o socialismo. Destaques para Michail Gorbachev desmantelando a economia centralizada do maior estado socialista e Margaret Thatcher desmanchando o welfare estate.

Há seis razões principais para o fim do socialismo:

A economia global

Numa economia global nenhum pais - comunista ou capitalista - pode sustentar individualmente economias fechadas ou auto-suficientes. Qualquer pais que tente se manter economicamente fechado e à parte do jogo global ficará para trás. Para fazer parte de uma economia global, um pais precisa ser altamente competitivo, algo que um ambiente protegido não proporciona.

Tecnologia

Inicialmente as telecomunicações viabilizaram a formação da economia global. Atualmente essa tecnologia está acelerando o desenvolvimento da globalização. Os serviços financeiros, o setor mais desenvolvido da economia global, têm mais a ver com eletrônica do que com finanças ou outros serviços que estão entre nós há muito tempo.

O insucesso da centralização

A inexistência de economias de planejamento centralizado bem sucedidas foi finalmente reconhecida. Está claro que o modelo descentralizado empreendedor e dirigido pelo mercado obteve mais sucesso em toda a parte.

O alto custo dos esquemas socialistas de "welfare state"

O custo dos serviços sociais fornecidos centralizadamente pelo governo colocou quase todos os países em situação difícil e chegou a inviabilizar muitos deles. A evolução demográfica por tanto tempo ignorada agora surpreendeu a todos. Por toda parte as pessoas estão reclamando dos gastos públicos crescentes.

A mudança da força de trabalho

Houve um declínio mundial na quantidade e na importância do operariado que forma a base dos sindicatos e dos partidos socialistas. Foi com a teoria trabalhista da mais valia que nasceu o socialismo. A porcentagem da mão-de-obra que incide nos custos de produção dos bens manufaturados tende a zero. Novas teorias são necessárias.

A nova importância do indivíduo

A própria natureza de uma economia da informação desloca o foco do Estado para o indivíduo. Estamos aprendendo que os computadores fortalecem o poder dos indivíduos e enfraquecem o poder do Estado, ao contrário da visão de George Orwell tinha do futuro. À medida que globalizamos nossas economias, os indivíduos estão se tomando mais poderosos e importantes do que foram na era industrial.

Neste final do século 20, a confluência e inter-relação desses seis fenômenos tem forçado a União Soviética e seus aliados a enfrentarem um dilema terrível - reinventar o socialismo para o terceiro milênio ou descartá-lo completamente. Ainda não está claro se o ano 2.000 assistirá ao desaparecimento do socialismo ou ao desenvolvimento de uma nova forma híbrida de socialismo com mecanismos de mercado. Atualmente vive-se um período de transição em que as economia de planejamento centralizado estão experimentando uma ampla variedade de mecanismos de mercado: privatizando os meios de produção e distribuição, criando bolsas de valores, descentralizando, permitindo falências, deixando o mercado estabelecer preços, desregulamentando.

O mundo está passando por uma profunda mudança de economias dirigias por governos para economias dirigidas por mercados.

Estilo de vida global e nacionalismo cultural

Graças a uma economia mundial vibrante, às telecomunicações globais e ao aumento do fluxo de viagens internacionais, estamos assistindo a um intercâmbio num ritmo sem precedentes entre povos, envolvendo hábitos alimentares, música, moda, com o surgimento de um novo estilo de vida internacional e universal.

Essa movimentação é comandada pelo consumo - beber café cappucino e água mineral Perrier, mobiliar apartamento com IKEA, comer sushi, vestir-se com a United Colors of Benetton, dirigir um Hyunday até o McDonald's ao som de rock britânico-americano.

O mundo está se tornando cada vez mais cosmopolita e estamos todos nos influenciando uns aos outros. As empresas que vendem produtos internacionais e encaram o mundo como um mercado único tem oportunidades excepcionais.

A televisão global já existe potencialmente nas estações multinacionais européias de televisão por satélite e o potencial de impacto da televisão nos países mais populosos do mundo é espantoso. Por exemplo: Ocobampa, uma pequena vila de 400 habitantes no Peru já dispunha de aparelhos de televisão movidos a pilha antes de ter água encanada, serviço regular de correios e até mesmo eletricidade. Na China e na Índia, países relativamente pobres onde residem 40% da população do mundo as pessoas estão sendo constantemente bombardeadas com imagens do Ocidente desenvolvido.

O fator mais importante na aceleração do desenvolvimento de um estilo de vida global único é a proliferação da língua inglesa. O inglês está se tornando a primeira língua verdadeiramente universal do mundo. Atualmente há cerca de 1 bilhão de pessoas que falam inglês no mundo. No ano 2.000 esta cifra provavelmente será de mais de 1,5 bilhão.

Mas ao mesmo tempo em que nossos estilos de vida se tornam mais parecidos e que o inglês se torna língua universal, há sinais inequívocos de uma poderosa contratendência, uma reação contra a uniformidade, um desejo de afirmação da singularidade de cada cultura e cada língua, o repúdio a influência estrangeira.

Quanto mais homogêneos se tornarem nossos estilos de vida, com mais firmeza nos agarraremos a valores mais profundos - religião, língua, arte e literatura. À medida que nossos mundos exteriores ficarem mais semelhantes, cada vez mais valorizaremos as tradições que vêm de dentro.

É desejável experimentarmos a comida uns dos outros, é divertido vestir blue jeans ou desfrutar do mesmo tempo de lazer. Mas se esse processo começar a desgastar a esfera de valores culturais mais profundos, as pessoas voltarão a dar ênfase às suas diferenças, numa espécie de reação cultural. A história, a língua e a tradição de cada nação são únicas. Portanto, de forma paradoxal, quanto mais parecidos nos tornamos, mais reforçaremos nossa singularidade.

A integração econômica da Europa em 1992 será acompanhada por uma explosão de afirmação cultural pelo resto da década de 90. Essa explosão inflamará e dará força ao renascimento global nas artes, na literatura, na poesia, na dança e na música.

A privatização do welfare state

O termo "welfare state" é adequadamente definido como um governo que gasta dinheiro para ajudar a proteger os cidadãos e promover o bem estar social.

Em todo o mundo existe agora um claro redirecionamento de ênfase para o indivíduo, e não mais para classes ou grupos. No passado pensávamos que era necessários fazer isto ou aquilo para eles. Agora o foco está mudando para o indivíduo.

A grande maioria das pessoas não quer que o governo gaste grandes quantias em programas que não funcionem. Elas querem que fundos do governo se somem a fundos privados e sejam especificamente dirigidos a oportunidades definidas, a situações em que as pessoas já tenham tomado a iniciativa ou tenham condições de fazê-lo prontamente.

A mudança básica é a passagem do governo centralizado para a potencialização do indivíduo:

m
Do esquema de casas cedidas pelo Estado, para pessoas adquirindo suas próprias casas;
m
Do serviço nacional de saúde para opções privadas;
m
Da regulamentação do governo para mecanismos de mercado;
m
Do "welfare" para o "workfare" em que se investem recursos públicos para auxiliar os menos favorecidos ajudando-os a encontrar trabalho, e não simplesmente sustentando-os com dinheiro do Estado. As estatísticas mostram que um anos após ter conseguido emprego, 75% das mulheres nesta situação nos Estados Unidos não voltam a depender do "welfare";
m
Do coletivismo para o individualismo;
m
Do monopólio do governo para o empreendimento competitivo;
m
Das indústrias estatais para indústrias em que os funcionários são acionistas;
m
Dos planos de previdência social do governo para planos de seguro privado e investimento;
m
De cargas tributárias para reduções tributárias;

A medida que nos aproximamos do próximo século, os governos de todo o mundo estão reconceituando a responsabilidade da sociedade em relação a seus cidadãos, especialmente aqueles que verdadeiramente não podem ajudar a si próprios.

Esse processo de busca do que substituirá o "welfare state"- busca do que será o estágio pós-welfare - sem dúvida continuará pela década que ainda nos resta neste século.

A ascensão da orla do Pacífico

Há 500 anos, centro comercial do mundo começou a migrar do Mediterrâneo para o Atlântico. Hoje está mudando do Atlântico para o Pacífico. As cidades da orla do Pacífico - Los Angeles, Sidnei e Tóquio - estão tomando o lugar das cidades há muito estabelecidas no Atlântico - Nova York, Paris e Londres.

A região da orla do Pacífico tem o dobro do tamanho da Europa e dos Estados Unidos. Hoje a Ásia tem a metade da população do mundo. No ano 2.000 terá dois terços, enquanto que a Europa apenas 6%. A Ásia é um mercado de US$ 3 bilhões por semana.

A orla do Pacífico é uma região que vai da costa ocidental da América do Sul em direção norte até o estreito de Bering, e da URSS em direção sul até a Austrália, incluindo todos os países banhados pelas águas do Pacífico. mas a força propulsora que está por trás da mudança do Atlântico para o Pacífico é o milagre econômico da Ásia.

Apesar de o Japão ser o atual líder da região, os países do leste da Ásia (a China e os Quatro Tigres - Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura) acabarão por dominar.

O impulso econômico da orla do Pacífico está sendo reforçado por um comprometimento com a educação. Desde 1985 o número de jovens coreanos que freqüentam escolas de educação superior era maior que o número de jovens britânicos nas mesmas condições.

Hoje a orla do Pacífico está passando pelo período mais rápido de expansão econômica da história, crescendo a uma taxa cinco vezes superior à da Revolução Industrial. O próximo milênio encontrará o PNB do mundo dividido entre quatro quartos, a orla do Pacífico, Europa, Estados Unidos e o restante do mundo.

As economias da orla do Pacífico dirigidas para a exportação, estão crescendo três vezes mais depressa do que grande parte do restante do mundo. A participação dos Quatros Tigres no total mundial de exportação de bens manufaturados chegou a 11% em 1988. Sua participação na exportação mundial de bens eletrônicos de consumo cresceu para 30%. As reservas de moedas estrangeiras dos Quatro Tigres hoje totalizam US$ 100 bilhões. Os Estados Unidos hoje vendem mais para a Coréia do Sul do que para a França e mais para Taiwan do que para a Itália e Suécia juntas.

Coréia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong revolucionaram a teoria do desenvolvimento econômico mostrando ao mundo como saltar uma grande parte da fase de industrialização e mergulhar diretamente na economia da informação. Acredita-se que elas continuem crescendo a taxas anuais que variam entre 7 e 10% contra um crescimento de cerca de 3% dos Estados Unidos.

A economia da Coréia do Sul é hoje maior do que a da Dinamarca ou da Áustria. Pelos padrões da ONU, a distribuição de renda da Coréia está entre as mais justas do mundo. Todos os países do mundo estão tendo de descobrir como a Coréia do Sul está em condições de ameaçar a posição do Japão como principal potência industrial do mundo.

Taiwan, o que essa ilha de 20 milhões de habitantes não tem de reconhecimento diplomático, compensa em relações econômicas. O PIB per capita é superior a US$ 6.000 por ano, o comércio exterior atingiu US$ 103 bilhões em 1988, colocando o país como o 12 no mundo em comércio exterior.

Por volta do ano 2.000 haverá 11 milhões de novos consumidores na Europa. Apenas nos países mais ricos do Pacífico, o Japão e os Quatro Tigres, haverá um número maior - 13 milhões. Mais 68 milhões na Tailândia, Malásia, Indonésia e as Filipinas. E a China poderá ter mais de 100 milhões de pessoas com disponibilidade de renda.

Os anos 90: A década das mulheres na liderança

As empresas em sua origem, foram criadas por homens e para homens. No entanto, desde a Segunda Guerra Mundial, o número de mulheres que trabalham aumento 200 %

Depois de duas décadas de preparação silenciosa, depois de ganharem experiência e sentirem frustração com o predomínio masculino, as mulheres que trabalham estão à beira de uma mudança revolucionária. Mais velhas, mais sensatas, mais numerosas e bem representadas em setores de ponta como computação, finanças e publicidade, as mulheres estão prontas para romper as barreiras que as impediam de chegar ao topo. A medida que a década de 90 progredir, o senso comum admitirá que mulheres e homens atuem igualmente como líderes de trabalho, e as mulheres alcançarão as posições de liderança que lhes foram negadas no passado.

O princípio dominante na organização deixou de ser a gerência com o objetivo de controlar a empresa e passou a ser a liderança com o objetivo de extrair das pessoas o que elas têm de melhor e de reagir rapidamente às mudanças. As tarefas das empresas mudaram e o mesmo aconteceu com sua força de trabalho. Esta é talvez a principal razão pela qual o princípio orientador dos negócios mudou da gerência tradicional para a liderança, abrindo as portas para as mulheres

Com a economia de informação dominando o mundo desenvolvido, o contexto de trabalho é totalmente diferente. Se o homem foi o protótipo do trabalhador industrial, o trabalhador da era da informação é tipicamente uma mulher. E, neste aspecto, as mulheres dominam a sociedade da informação (84% das mulheres que trabalham fazem parte do setor de informação e serviço).

As mulheres atingiram uma massa crítica nas profissões intelectuais. Elas já não são uma minoria simbólica. Seus valores e estilos de administração são mais próximos dos demandados pela era da informação. As mulheres podem ter saído perdendo na era industrial, mas se estabeleceram nos setores do futuro. Tanto é que já estão liderando suas próprias empresas e o número de empresas que estão sendo abertas por mulheres é o dobro daquelas que estão sendo abertas por homens.

O executivo como alguém que dá ordens está sendo substituído pelo executivo como professor, facilitador e mentor. O que dá ordens tem todas as respostas e diz a todos o que fazer, o facilitador sabe como obter as respostas de quem de quem melhor as conhece - as pessoas que estão fazendo o trabalho. O líder facilitador faz perguntas, dirige o grupo ao consenso, usa informações para demonstrar a necessidade de ação.

O desafio básico da liderança na década de 90 é estimular o trabalhador novo e mais instruído a ser mais empreendedor, autogerenciar-se e orientar a si mesmo no sentido de aprender durante toda a vida. Manter as pessoas entusiasmadas é o trabalho do líder.

As mulheres e a sociedade de informação - que valorizam mais o cérebro do que os músculos - formam uma parceria perfeita. Onde quer que a evolução da informação esteja florescendo, as mulheres estão ingressando na força de trabalho. E onde quer que a revolução da informação já tenha se difundido, as mulheres constituirão uma parcela substancial de força e trabalho.

ˆ A era da Biologia

A era da informação será também a era da biologia. O discursos do dia-a-dia cada vez mais emprega palavras e expressões de biologia.

Hoje estamos no processo de criar uma sociedade que é um elaborado conjunto de sistemas de feedback de informações que reproduz a estrutura básica do organismo biológico. Sem esquecer que estamos no limiar de uma verdadeira era da biotecnologia que está se tornando um presença poderosa em nossas vidas.

Em breve seremos capazes de identificar pessoas com tendências para doenças específicas e uma nova geração de vacinas já está a caminho. A manipulação genética de produtos agrícolas e animais está se expandindo rapidamente. Fertilizantes e substâncias que aumentam a resistência dos vegetais estão sendo colocados nas sementes. A biotecnologia pode por fim à fome com uma nova revolução verde. Progressos estão sendo realizados em técnicas genéticas para acelerar o desenvolvimento de peixes e gado bovino e aumentar o teor protéico das batatas e arroz. Espécies ameaçadas de extinção podem ser salvas através de transplante de embriões em mães de "aluguel".

Defensores da ecologia, ativistas pelos direitos dos animais, agricultores, pecuaristas e o clero, entre outros, têm se preocupado com essas mudanças, porque se por um lado a biotecnologia sugere contribuições fantásticas para melhoria de vida, por outro também levanta questões no mínimo assustadoras.

Será ético alterar a natureza ? As novas espécies que podem ser desenvolvidas vão prejudicar o meio-ambiente ? Os animais estão sendo mal tratados nas experiências realizadas ? As indústrias farmacêuticas e agrícolas estão envolvidas nesse processo apenas pelo dinheiro ? Quais são as implicações éticas, legais e sociais da biotecnologia ?

A medida que nos aproximamos do próximo milênio a biotecnologia tenderá a ser tão importante quanto o computador.

Alguns avanços na área da biotecnologia dão uma idéia da força desta megatendência:

m
Em Lima, Peru, há um projeto que virá alterar a batata geneticamente para que esta venha a ter o mesmo valor protéico da carne. Tenta-se, da mesma forma, melhorar o valor nutritivo de outros vegetais, como o arroz e a mandioca.
m
A biotecnologia atenderá a milhões de pessoas em todo o mundo que se preocupam com o peso, reduzindo significativamente a gordura de alimentos como carne de porco e adicionando ao gosto natural da pipoca o sabor de manteiga sem que isso represente mais calorias.
m
Na Universidade de Comelli, cientistas estão criando novos tipos de maçã que não escurecerão quando sua parte interna for exposta ao ar. Os japoneses desenvolveram um melancia sem sementes.
m
Já se pode criar embriões clonados (copiados identicamente) de touros premiados para gestação em gado comum. Os futuros criadores terão a capacidade de clonar grandes quantidades de bois, porcos e carneiros a partir e um único embrião, com qualidade uniforme e alto padrão características essas que eram impossíveis de serem obtidas anteriormente.
m
No decorrer da primeira década do novo século, adultos e crianças passarão rotineiramente por exames para detectar genes que os tornam suscetíveis a doenças letais como o câncer. Para prevenir e tratar um grande número de outras doenças, genes defeituosos serão substituídos por genes perfeitos.
m
Na primeira década do novo século será possível através da engenharia genética realizar um vacinação completa contra muitas doenças com uma única picada no braço.

Renascimento religioso do terceiro milênio

Com a proximidade do ano 2.000 há sinais de um redespertar religioso mundial em todas as frentes. Isto ocorrerá em razão da força magnética da chegada de um novo milênio.

Por ocasião da passagem para o segundo milênio os cristãos da "Idade das Trevas" da Europa acreditavam que o fim do mundo também estava próximo. A medida que nos aproximamos do ano 2.000 tudo parece se repetir novamente.

Daí o surgimento de movimentos envolvendo milhões de pessoas desde os mediuns da New Age aos carismáticos que falam línguas estranhas e aos pregadores de TV propensos a se envolver em escândalos.

Quando as pessoas encontram-se confusas com as mudanças, a necessidade de crença espiritual se intensifica de duas formas: em movimentos dirigidos para dentro (do tipo "acreditar no que sente dentro de si") ou em religiões autoritárias (do tipo "é assim que as coisas são"). Ambas as formas estão florescendo hoje.

As pessoas estão se voltando para a religião em busca de paz e bem-estar. Mas há indícios de que não estão conseguindo encontrar o que procuram através das igrejas tradicionais. Na América do Norte uma séria de novas religiões que fogem a estrutura judáico-cristã está formando raízes.

Os Fundamentalistas

Com 15 milhões de membros, os fundamentalistas batistas do sul do EUA são agora o maior grupo de protestantes do país. A força mais visível dos fundamentalismo é o uso eficaz da mídia, buscando o alto contato humano. Mesmo quem não gosta da moral e dos métodos dos evangelistas pela televisão tem que admitir que esses pregadores souberam reconhecer as oportunidades da era da informação e da alta tecnologia e as aplicaram em seus campos - ganhando dinheiro ou salvando almas.

O Movimento New Age

O movimento New Age é difícil de ser medido ou definido. Mas em todas as principais cidades americanas e européias, milhares de pessoas que buscam insigths e crescimento pessoal se agrupam ao redor de livrarias especializadas em metafísica, professores espirituais ou centros de estudo. Pesquisadores estimam que eles representam hoje de 5 a 10% da população. O New Age tem muito a ver com a conscientização refinada - da unidade da criação, do potencial sem limites da humanidade e da possibilidade de transformação própria e do mundo de hoje em algo melhor.

A recuperação das religiões tradicionais

O sucesso das igrejas não-ortodoxas que florescem nesta era vem estimulando as religiões tradicionais à adoção de novas posturas, indo a TV, criando grupos de oração, estudo bíblico, retiros espirituais, assim como experimentando missas e cultos alternativos.

A esperança de volta

O renascimento religioso marca o fim de um tipo de fé na ciência como resolvedora de todos os nossos problemas. Essa fé nasceu na Revolução Industrial quando, ao serem usadas para propósitos benignos a ciência e a tecnologia dotaram a humanidade de poderes quase divinos.

O ressurgimento da espiritualidade pode ser visto como um desvio dessa "religião da tecnologia" e um sinal de grande esperança, na medida em que começa a surgir o comprometimento de tornar obsoletas as armas de destruição em massa.

Com a aproximação do simbólico ano 2.000 a humanidade não está abandonando a ciência, mas através do renascimento religioso, reafirmando o espiritual naquilo que é agora uma causa mais equilibrada para melhorar nossas vidas.

Š O triunfo do indivíduo

O triunfo do indivíduo se transformará no grande tema de discussões no final do século 20. Os indivíduos se tornarão mais poderosos do que nunca na passagem para o próximo milênio.

É um indivíduo que cria uma obra de arte, adota uma filosofia, arrisca todas suas economias em um novo negócio, emigra para um novo país ou tem uma experiência espiritual extraordinária. É um indivíduo que muda a si mesmo antes de mudar a sociedade. Os indivíduos hoje podem provocar mudanças com eficácia muito maior do que a maioria das instituições.

Os anos 90 serão caracterizados por um novo respeito pelo indivíduo como alicerce da sociedade. Ele será a unidade básica da mudança. O movimento ecológico, o movimento feminista, o movimento anti-nuclear foram construídos na consciência de cada pessoa por um indivíduo convencido da possibilidade de uma nova realidade.

O triunfo do indivíduo sinaliza a morte do coletivo. Até mesmo os comunistas estão convencidos de que apenas o indivíduo gera riquezas. Os sindicatos admitem que as pessoas dever ser recompensadas por seus esforços individuais. É o triunfo da responsabilidade individual contra o anonimato do coletivo.

O que não significa que o indivíduo tenha de enfrentar o mundo sozinho. Realizando individualidades uma pessoa pode construir comunidades que são livres associações de indivíduos. Nas comunidades também não há como esconder. Todos sabem quem está contribuindo ou não.

O papel desempenhado pelos empreendedores individuais na economia é cada vez mais relevante. Os indivíduos em toda parte sentem-se investidos de poder e mais livres para determinarem seu próprio destino político. Atualmente, é difícil alguém disputar uma eleição com base em partidos, os candidatos concorrem como indivíduos. A mudança é da política de partidos para a política empreendedora.


NAISBITT, John ; ABURDENE, Patricia, Megatrends 2000: dez novas tendências de transformação da sociedade nos anos 90. São Paulo : Amana-Key, 1990.
Webmaster: webmaster@bogari.com.br
Copyright © 2001 Bogari Consultoria Gestão e Negócios Ltda.
Última atualização: 06 de Junho de 2001