As
décadas de 60 e 70 podem ser consideradas como a "idade de
ouro da estratégia empresarial". A proliferação de conceitos,
de escolas de administração, de empresas de consultoria estratégica
e de staffs de planejamento, refletia a então crescente aceitação
da teoria do planejamento estratégico.
A
evolução histórica dos métodos de planejamento estratégico
As
décadas de 60 e 70 podem ser consideradas como a "idade de
ouro da estratégia empresarial". A proliferação de conceitos,
de escolas de administração, de empresas de consultoria estratégica
e de staffs de planejamento, refletia a então crescente aceitação
da teoria do planejamento estratégico.
A
idade de ouro
Visto
segundo a perspectiva de meados da década de 80, o período de 1960-1980
representa o momento de esplendor para o planejamento estratégico
e para o estrategista "profissional".
A
"idade de ouro" surgiu dramaticamente, floresceu numa
extensa gama de idéias úteis e métodos efetivos e, posteriormente,
foi caindo em desgraça à medida que a pressão das novas situações
e desafios punham em evidência seus pontos fracos. Atualmente, esta
idade de ouro está chegando ao fim; a atividade da estratégia empresarial
e a gestão moderna em geral encontram-se em um período de transição
menos nítido, monolítico e confiável.
Mas
seu efeito ainda perdura e, por certo, continuará influenciando
profundamente a estratégia empresarial do fim do século. Portanto,
é importante traçar sua evolução e compreender seus principais conceitos
e as instituições que a respaldaram. Para os que atualmente ocupam
cargos de direção é ainda mais importante analisar as causas de
seu êxito e de sua indiscutível grandeza, e também as razões de
sua decadência.
O
predomínio da direção geral no vértice da empresa
A
idade de ouro da estratégia empresarial repousava em alguns conceitos
básicos, e o primeiro deles estabelecia que os executivos de sucesso
eram também diretores gerais eficazes. Por conseguinte, as qualidades
de um estrategista eficaz não dependiam da organização ou do ambiente
específico em que ele desempenhava sua atividade. Dava-se menos
importância à experiência de carreira do alto executivo do que aos
traços gerais de sua personalidade e aos métodos de direção universais.
Portanto,
se existe um tipo de função como a do diretor geral, capaz de dirigir
eficazmente a estratégia de qualquer empresa em todo momento ou
lugar, deduz-se que a estratégia idônea depende basicamente de identificar
e/ou capacitar os diretores gerais. Mais ainda, levando esta tese
até suas últimas conseqüências, o processo de tomada de decisões
estratégicas diferencia-se claramente do processo rotineiro e diário
da tomada de decisões operacionais, estreitamente relacionado com
a natureza específica da empresa e seu ambiente competitivo.
O
conceito de direção geral corresponde ao programa da maioria dos
cursos de "política de empresa" surgidos na década de
60. Esta afirmação é particularmente certa para o curso pioneiro
da Harvard Busines School, que durante vários anos serviu de modelo
aos cursos de política e estratégia empresarial dos Estados Unidos.
O mais eloqüente defensor do conceito de direção geral foi Kenneth
Andrews, cujas principais obras sobre estratégia empresarial eram
originariamente notas conceituais complementares destinadas aos
alunos de política de empresas de Harvard Busines School.
As
teses de Andrews
O
pensamento de Andrews gira em torno da análise que faz sobre os
variados aspectos do alto executivo. Para Andrews, este deveria
desempenhar simultaneamente diversos papeis no terreno pessoal,
administrativo, estratégico e até mesmo ético. Na prática ele distingue
três classes de liderança superior: organizativa, pessoal e "arquiteto
da estratégia".
A
definição do alto executivo como "líder da organização"
está, na teoria de Andrews, muito próxima do estereótipo da função
do alto executivo. De acordo com esta categoria de liderança, os
resultados alcançados são aceitáveis em função do rendimento do
investimento, do crescimento ou de qualquer outro critério objetivo
e quantitativo de benefício. Ao mesmo tempo, o alto executivo deve
supervisionar e controlar a infra-estrutura sobre a qual repousa
o funcionamento da empresa. Por último, Andrews sublinha que um
elemento-chave da figura do líder da organização é a capacidade
de integrar as diferentes atividades funcionais e especializadas.
Avançando
mais um passo, esse autor também define explicitamente outra característica
importante do alto executivo: a liderança pessoal. Quem quer que
esteja familiarizado com as atividades das grandes empresas, ficará
impressionado com a personalidade e o estilo do mais alto executivo
da organização. Os êxitos e fracassos das estratégias empresariais
costumam depender diretamente desta alquimia pessoal. Para Andrews,
um líder pessoal eficaz utiliza o dom da "persuasão e articulação,
que cultiva tendo sempre coisas interessantes a dizer e prestando
atenção aos comentários e opiniões dos outros".
É,
porém, em sua terceira categoria - o diretor geral como arquiteto
da estratégia - que Andrews estabelece elegantemente a verdadeira
dimensão estratégica da liderança. Para além dos atributos rotineiros
e pessoais, o diretor geral é o "guarda dos objetivos da empresa".
Ética
e estratégia
A
mensagem de Andrews exerceu grande influência no terreno da estratégia
empresarial. Para ele, o ponto de partida era o diretor geral; a
liderança contava em termos pessoais, administrativos e estratégicos
a longo prazo. Com efeito, Andrews incluiu explicitamente a ética
como parte da estratégia empresarial, acrescentando que a estratégia
deve incluir o que a empresa deve ser. E afirmou: "...ao determinar
a estratégia futura deve-se levar em consideração, como parte integrante
de seu ambiente social, os níveis éticos e morais". Antecipou-se
também à discussão iniciada no início da década de 80, entre o papel
das partes interessadas exteriores ao mercado (consumidores, governo,
ecologistas, etc.) na determinação da estratégia empresarial. Em
1980, por exemplo, o diretor geral da Du Pont, Irving Shapiro, desempenhou
importante papel ao conseguir o apoio da indústria química à lei
Superfund sobre a eliminação dos resíduos químicos.
A
preferência de Andrews inclinava-se para a ação, face aos desafios
estratégicos, e punha de lado a elegância inútil. "Generalizar
sobre como construir uma estratégia eficaz é menos importante do
que trabalhar nisso", escreveu certa ocasião. Apesar do estilo
de Andrews ser estranhamento reservado e abstrato, atualmente voltam
a ser descobertas suas principais teses, como a que destaca a importância
do papel da alta direção na formulação e na execução da estratégia
empresarial. Com efeito, esse primeiro atributo da estratégia, a
necessidade de liderança, significa um vínculo permanente entre
o começo da idade de ouro e o período de transição que marca o seu
fim, iniciado na década de 80.
A
onda de atividade no terreno conceitual e prático eclipsou o alcance
da natureza crítica da liderança. Novas forças dedicaram-se a racionalizar,
sistematizar e profissionalizar o campo da estratégia empresarial.
Essa crítica vitoriosa constava de dois elementos básicos: 1) o
desenvolvimento de sistemas internos de apoio à estratégia global;
2) o surgimento de novas idéias, métodos e tipos de organizações
de serviços e staffs internos, dedicados a analisar a influência
dos principais mercados externos no que diz respeito ao desenvolvimento
das estratégias empresariais.
A
era Chandler
Sob
ação simultânea dos mecanismos internos de apoio estratégico e dos
novos conceitos estratégicos para analisar o mercado e a indústria
externos, surgiu a idade de ouro da estratégia empresarial.
Em
1962, com a publicação de Strategy and Structure do historiador
de empresa Alfred P. Chandler, começou-se a dar atenção ao apoio
interno à estratégia. Essa obra trata da grandeza da estratégia
de diversificação e do surgimento da estrutura multidivisional como
apoio, no período posterior à Primeira Guerra Mundial, nos Estados
Unidos. Como todos os historiadores, Chandler também refletia as
preocupações e as idéias dominantes de sua época, a década de 60.
Ironicamente,
as idéias centrais de Chandler tiveram maior acolhida entre os estudantes
de direção de empresas do que entre seus próprios colegas historiadores
e economistas.
Sua
primeira grande idéia central consistia na separação da direção
em dois campos básicos: as operações e a estratégia. A direção operativa
abarca as atividades diárias, a curto prazo e relativamente rotineiras,
que constituem parte dos esforços de gestão da empresa. A direção
estratégica, pelo contrário, refere-se ao gerenciamento a longo
prazo na empresa em seu conjunto. Por isso, a inovação fundamental
desenvolvida ao longo da obra de Chandler diz respeito mais à perspectiva
do que a uma decisão estratégica ou a uma mudança estrutural determinada.
Esse
desdobramento explícito significou um considerável avanço conceitual
no terreno da estratégia empresarial. Legitimou a atividade de planejamento
empresarial em seu conjunto e revalorizou-a no seio da organização.
Em acréscimo, a noção de estratégia empresarial como uma área definida
e independente significou o início de sua profissionalização, tendência
intensificada nos últimos anos da década de 60 e que alcançou seu
ponto mais alto no fim da década seguinte.
A
estratégia de diversificação produto-mercado
A
identificação da principal dicotomia no pensamento corporativo -
direção operativa frente à direção estratégica - foi apenas a contribuição
inicial de Chandler à estratégia empresarial; ele também exemplificou
a utilidade desta perspectiva com o surgimento de um dos tipos mais
importantes de ações estratégicas deste século: a diversificação
produto-mercado. Não é por acaso que o conceito de estratégia tenha
sido formalizado pela primeira vez de maneira significativa quando
se estudou a primeira onda de diversificação empresarial, depois
da Primeira Guerra Mundial.
Na
época, o ciclo da integração vertical em grande escala na indústria
norte-americana chegava a seu termo: os principais setores industriais
- o aço, a química, o alumínio, as grandes turbinas - terminavam
sua consolidação, e o mesmo processo verificava-se na indústria
da alimentação, na podução e distribuição de cigarros, na indústria
cinematográfica e na venda no varejo.
Para
muitos executivos dessas indústrias, as deficiências estratégicas
assim como a força da exacerbada concorrência num mesmo setor eram
cada vez mais evidentes. A partir desta consciência das alternativas
estratégicas inerentes à concentração, as grandes empresas começaram,
de maneira atabalhoada e mais ou menos independente, o processo
de diversificação. É preciso dizer logo que a diversificação estratégica
não aconteceu em todos os setores. Na mineração, na construção e
na indústria de bens de consumo, por exemplo, sua ausência foi manifesta.
O
estilo do processo de tomada de decisões que levou à diversificação
também não foi completamente uniforme. Algumas empresas, como a
Du Pont, sob a direção de Pierre Du Pont, e a General Motors, sob
a direção de Alfred Sloan, analisavam os problemas estratégicos
e definiam as diferentes alternativas, de maneira racional, formal
e sistemática. Outras grandes empresas, pelo contrário, eram menos
metódicas: a Standart Oil de Nova Jersey, por exemplo, navegou à
deriva durante mais de um lustro, na década de 20, antes de conseguir
estabelecer solidamente uma estratégia de diversificação.
|
O
efeito da diversificação sobre a estratégia empresarial
As primeiras questões estratégicas do período posterior à I Guerra Mundial derivam,
ao menos parcialmente, de aspectos relacionados com a diversificação.
O surgimento de companhias multinacionais nos anos que antecederam
a Grande Depressão dos anos 30, e seu desenvolvimento no segundo
pós-guerra, constituíram um novo conjunto de desafios estratégicos
em termos de segmentação de áreas de produto-mercado. Grande
parte da estratégia global pode, porém, considerar-se como
um caso extremo de estratégia de diversificação. A evolução
da General Eletric pode ser considerada como a história de
uma instituição em busca permanente do nível adequado de diversificação
no ambiente estratégico cambiante.
Tendo iniciado suas atividades no setor de material
elétrico, a General Eletric cresceu, de maneira contínua e
homogênea, na década de vinte: utilizando a eletricidade como
base de seu desenvolvimento, alcançou uma posição dominante
nos setores de turbinas, motores, lâmpadas e eletrodomésticos.
O advento da Segunda Guerra Mundial provocou uma diversificação
maciça que, por sua vez, foi uma catalisador para o desenvolvimento
das técnicas pioneiras de planejamento estratégico.
|
Estrutura
e estratégia
A
terceira grande contribuição de Chandler foi o reconhecimento de
que o êxito da estratégia empresarial dependia tanto de sua adequada
execução quanto de sua formulação acertada. O próprio Chandler exprimiu
esta idéia de forma um pouco diferente, ao afirmar que toda estratégia
que aspira ao êxito deve apoiar-se numa estrutura idônea. Sua mensagem
explicitava que a estratégia não deve ser um exercício intelectual
isolado, visto que sua viabilidade se acha intimamente ligada à
atividade interna da empresa. Ao contrário da dicotomia que distingue
entre direção operacional e estratégia, isolando esta última das
atividades diárias da empresa, a vinculação do êxito da estratégia
a determinadas características internas relaciona-a novamente às
atividades em curso. Chandler articulou a teoria de que a estratégia
não deve ser algo totalmente isolado e abstrato.
Podemos
facilmente perder de vista esse aspecto geral de seu pensamento,
se atentarmos apenas para o surgimento da empresa multidivisional,
que Chandler muito acertadamente identificou como "a inovação
estrutural mais importante da indústria americana no período entre
as guerras". Para um crescente número de empresas, a descoberta
e a criação de companhias multidivisionais significou um impulso
importante em sentido estratégico. Graças às diversas divisões que
competiam em diferentes áreas de produto-mercado, elas adquiriram
maior flexibilidade e novos graus de liberdade. Desapareceu assim
a rigidez e o incômodo característico da estrutura funcional das
grandes empresas, que tentavam pôr em prática estratégias de diversificação.
Com uma estrutura multidivisional, tais estratégias de diversificação
podiam funcionar com êxito.
A
importância de identificar a estrutura como variável estratégica
fundamental - talvez primordial, à margem da segmentação de produto-mercado
- ultrapassa os limites da estrutura organizacional. Em sentido
amplo, a congruência entre a estratégia e a estrutura faz parte
de um aspecto mais geral da estratégia empresarial: esta tem que
se apoiar em todos os componentes relacionados com a atividade interna
da empresa. Os diferentes processos, como a informação, o pessoal,
os sistemas de controle, entre outros, também devem apoiá-la. As
estratégias funcionais, e portanto parciais - de produção, marketing,
tecnologia e finanças -deveriam apoiar-se mutuamente e ser coerentes
em sentido estratégico geral. Naturalmente, as grandes empresas
teriam interesses em diferentes setores, o que, no fim de contas,
é a quintessência da diversificação. Mas cada uma dessas divisões,
como grupo ou conjunto de grupos, tentaria alcançar os objetivos
gerais da empresa. A noção de que a estratégia geral de uma empresa
é simplesmente a soma de suas diferentes políticas setoriais foi
rapidamente posta de lado. Com efeito, remetendo-nos à proposta
elaborada por Chandler, primeiro deve definir-se a estratégia global
da empresa e, a seguir, se aplicarão os diferentes processos, as
políticas funcionais e as estratégias de produto, que permitam alcançar
o objetivo geral.
As
quatro chaves de ouro
Na
década de 60 já se haviam estabelecido, e começavam a operar, muitos
dos ingredientes da idade de ouro da estratégia empresarial. Nas
áreas críticas desenvolveram-se rapidamente os conceitos mais importantes:
| |
m
|
A
liderança da alta direção. |
| |
m
|
A
definição da estratégia empresarial como algo diferente das
questões operativas da empresa. |
| |
m
|
A
análise de um aspecto fundamental do processo: a diversificação. |
| |
m
|
A
necessidade de desenhar adequadamente e instalar os diferentes
sistemas internos de apoio. |
A
importância desses quatro conceitos-chave para a teoria da estratégia
empresarial tornou-se evidente nas décadas de 60 e 70. Esse período
viu emergir notáveis líderes empresariais, que tornaram possível
o desenvolvimento de diferentes enfoques estratégicos. Seria até
o caso de perguntar se suas companhias teriam podido aplicar com
tanto êxito suas estratégias, caso não tivessem contado com sua
contribuição.
Desenvolvimento
do Planejamento Estratégico Formal
As
empresas continuaram crescendo, expandiram-se geograficamente e
entraram em novos setores de negócios. As expressões diversificação
e estrutura multidivisional, embora ainda verdadeiras em sentido
geral, eram cada vez menos úteis para descrever e analisar com precisão
a evolução e as ações das empresas comerciais de maior envergadura.
Por conseguinte, começaram a desenvolver-se novos conceitos, técnicas
e funções diretivas, que permitiram uma melhor adaptação à nova
complexidade de fins dos anos 60 e início dos anos 70. O núcleo
central desses novos desenvolvimentos pode ser classificado na categoria
de planejamento estratégico.
Com
freqüência, identificam-se estratégia empresarial e planejamento
estratégico considerando-os a mesma coisa. Todavia, tal concepção
é incorreta. Insistir nela é obscurecer as claras contribuições
decorrentes do surgimento do planejamento estratégico. E, também,
muitos dos traços mais dinâmicos e salientes do enfoque geral da
estratégia empresarial.
Processo
de Planejamento Estratégico
As 12 etapas típicas da década de 70
|
|
Crenças
ou conjunto de valores da empresa |
|
|
Missão
ou propósito que define a natureza do negócio |
|
|
Políticas
básicas que servem de guia para as ações de gestão |
|
|
Análise
de situação que resume as tendências nas áreas-chave do exterior
da empresa |
|
|
Suposições
de ambiente para avaliar o desenvolvimento futuro de variáveis
exteriores à empresa |
|
|
Diagnóstico
de fraquezas e problemas |
|
|
Diagnóstico
de forças e oportunidades |
|
|
Proposta
de objetivos continuados e de objetivos específicos |
|
|
Definição
de estratégias e programas |
|
|
Resumo
financeiro como expressão quantitativa dos objetivos e programas |
|
|
Padrões
de rendimento, isto é, medidas específicas de controle de resultados |
|
|
Processos
de controle sistemático para a verificação do cumprimento dos
programas |
A
unidade estratégica de negócio
É
difícil determinar com precisão a origem do planejamento estratégico
moderno, mas não há dúvida de que o trabalho pioneiro realizado
por Borch, no início da década de 60 na General Eletric, preparou
o terreno para a profissionalização dessa atividade. A General Eletric
foi a primeira sementeira de pelo menos duas inovações importantes:
uma de caráter organizacional, a unidade estratégica de negócio;
outra de caráter analítico, a análise quantitativa e estatística
aplicada ao planejamento estratégico.
A
unidade estratégica de negócio significou um desenvolvimento organizacional
de primeira ordem, talvez comparável ao surgimento das divisões
depois da Primeira Guerra Mundial. Em meados da década de 60, as
empresas haviam crescido tanto que cada divisão era praticamente
uma companhia diversificada independente. A unidade estratégica
de negócio foi concebida para resolver dois problemas importantes
e aparentemente contraditórios: e um lado, a divisão era muito centralizada,
pouco manejável e flexível para efeito de planejamento estratégico
e atribuição de recursos; de outro lado, algumas empresas, como
a General Eletric sob a direção de Cordiner, haviam tentado resolver
esta inércia através da descentralização completa da estrutura organizacional.
Por sua vez, porém, a inovação deu origem a seu próprio conjunto
de problemas: o elevado número de canais de informação produziu
uma sobrecarga informativa na cúpula; a coordenação e a alocação
de fundos para o número crescente de operações era uma tarefa difícil
e laboriosa; com freqüência, a eliminação de diversas classes de
redundâncias ou o aproveitamento de sinergias oportunistas teria
sido mais rentável para a empresa em seu conjunto. Ora, torna-se
muito difícil pôr em prática tais medidas numa estrutura altamente
descentralizada.
Ao
menos parcialmente, a unidade estratégica de negócio ofereceu às
grandes empresas um meio para resolver os problemas associados à
estrutura centralizada ou de divisões, ou ao volume pouco manejável
de estímulos que derivam da excessiva descentralização.
Quase
como um presságio de alguns traços mais salientes da idade de ouro
da estratégia empresarial, a unidade estratégica de negócio resultou
da colaboração entre uma notável empresa de consultoria de estratégia,
Mckinsey & Company, e uma das maiores companhias, das mais profissionais
e diversificadas do mundo, a General Eletric. Então, seu diretor
geral, Borch, pretendia reagregar, ao menos parcialmente, a estrutura
descentralizada que havia recebido como legado de seu predecessor
Cordiner, e por isso contratou a Mckinsey para analisar a situação.
As recomendações da consultora aconselharam a reestruturação da
companhia na base das unidades estratégicas de negócio.
A
General Eletric aceitou as idéias de Mckinsey no tocante ao planejamento
estratégico, mas manteve sua estrutura de departamentos descentralizados
para as operações correntes. Criou assim uma estrutura dual: um
curso operativo e outro estratégico. Essa solução foi uma das primeiras
aplicações de um conceito que, em começos da década de 80, chegaria
a ser predominante e fundamental: a simultaneidade. Por simultaneidade
entende-se a direção estratégica simultânea em vários níveis, da
gestão corporativa, inclusive contraditórios.
Voltando
ao papel da unidade de negócio no planejamento estratégico, esta
inovação estrutural, comparável ao surgimento da divisão que se
verificou uns 40 anos antes, libertou a estratégia de sua crescente
rigidez e confusão. Fez com que a empresa se tornasse mais maleável
para moldar-se e posicionar-se a si mesma, a fim de melhor aproveitar
as oportunidades e enfrentar mais eficazmente as ameaças do ambiente.
As
virtudes de uma ambigüidade
A
unidade estratégica de negócio era, em si mesma, uma entidade bastante
ambígua. Constituía essencialmente uma série de atividades que serviam
a um conjunto de áreas de produto-mercado relacionadas entre si.
Esse tipo de relação, sobre o qual se definia o campo de ação de
uma unidade estratégica de negócio, dependia das características
da companhia, da indústria e do mercado. A ambigüidade de tal conceito
oferecia aos diretores gerais uma grande flexibilidade para desenvolver
a estratégia empresarial, e eles rapidamente compreenderam que dispunham
de uma nova e poderosa ferramenta para agrupar de diversas formas
os componentes da empresa. Com efeito, os critérios para estabelecer
as unidades de negócio diferem segundo as partes afetadas da empresa:
podem estar formadas por dispersos embriões de companhias, ou por
uma empresa única que compete num setor industrial já maduro. Dessa
forma, os diretores gerais poderiam aproveitar ao máximo a crescente
variedade de áreas de produto-mercado.
A
utilidade do conceito da unidade estratégica de negócio superou
a flexibilidade de sua definição. Mesmo a nível macroeconômico,
era possível constituir conjuntos de unidades estratégicas de negócio
segundo critérios tais como a atratividade da indústria, a firmeza
ou o crescimento da empresa, etc. Melhor ainda, a utilização de
dois critérios como variáveis seria até mais reveladora. Não foi
necessário esperar muito tempo para que a matriz de dupla entrada
- ou carteira estratégica - se convertesse numa ferramenta comum
nas técnicas de planejamento estratégico.
McKinsey-Shell-General
Electric

|
A
carteira estratégica, inicialmente uma matriz de dupla entrada,
pôs em evidência, de forma simples e clara, o efeito que duas
dimensões estratégicas chave têm sobre a empresa: a atividade
da indústria e a firmeza da empresa, na matriz McKinsey-Shell-General-Electric;
a firmeza da companhia e os diferentes estágios da evolução
da indústria, no modelo de Arthur D. Little; a participação
no mercado e no ciclo de desenvolvimento do mesmo, na matriz
do Boston Consulting Group. Esta nova ferramenta permitiu considerar
simultaneamente duas unidades básicas de análise. Assim, segundo
esse amplo enfoque da empresa, a carteira estratégica possibilita
o aproveitamento máximo da capacidade de agrupamento das unidades
de negócio, o que se constitui em um de seus principais atributos. |
Arthur
D. Little

Boston
Consulting Group

A
análise quantitativa
A
unidade de negócio possuía outra característica adicional que a
tornava mais atraente para a crescente profissão de planejadores
estratégicos: muitos de seus atributos mais importantes podiam ser
analisados quantitativa e estatisticamente. Também aqui, a técnica
mais popular foi desenvolvida na General Eletric.
Devido
ao alto grau de diversificação da General Eletric, seus diretores
executivos encontravam-se permanentemente diante da tomada de decisões
complexas sobre a alocação de recursos e planejamento estratégico.
Continuamente buscavam meios sistemáticos para avaliar as estratégias
fundamentais. Como resultado de tais esforços, desenvolveu-se um
conjunto de técnicas e um banco de dados.
Utilizando
a unidade estratégica de negócio como a unidade-chave da análise
(em oposição à divisão ou à companhia em seu conjunto), quantificaram-se
numerosas variáveis estratégicas, inclusive o grau de integração
vertical, a qualidade do produto, os gastos em investigação e desenvolvimento,
a participação no mercado. O objetivo central dessa análise era
determinar as principais variáveis que incidiam no êxito da estratégia,
definidas como rendimento do investimento. Utilizando o banco de
dados disponível, realizou-se uma série de análises de regressão,
considerando o rendimento do investimento como variável dependente.
A conclusão foi que um rendimento elevado do investimento encontrava-se
associado a uma grande participação no mercado.
O
Efeito do Lucro sobre as Estratégias de Mercado (PIMS)
As
técnicas estatísticas desenvolvidas na General Eletric foram transferidas
para o Strategic Planning Institute. O banco de dados conhecido
sob o nome de Efeito do Lucro sobre as Estratégias de Mercado -PIMS
(Profit Impact on Market Strategies) começou a crescer rapidamente
e, em meados da década de 70, as publicações especializadas recolhiam
os resultados da aplicação de seus métodos. No início dos anos 80,
o banco de dados PIMS continha informações sobre mais de 1.500 empresas
de bens ou serviços (na realidade, unidades estratégicas de negócio)
que representavam cerca de 200 companhias.
Embora
em suas últimas publicações o PIMS ressaltasse o caráter orientador
de suas conclusões, os resultados iniciais põem em destaque a importância
que a participação no mercado tem na determinação da rentabilidade.
Mais ainda, o PIMS também tentou explicar porque essa participação
é um atributo tão positivo: segundo suas conclusões, uma grande
participação no mercado eqüivale a uma grande potência de mercado,
o que permite fazer importantes economias na produção, no marketing
e na compra. Por outro lado, a maior dimensão das operações permite
dispor de modo mais discricionário de recursos para atividades como
pesquisa e desenvolvimento, controle de qualidade, contratação de
pessoal, formação de executivos e planejamento a longo prazo. Por
conseguinte, uma grande participação no mercado relaciona-se não
só com o rendimento elevado do investimento, mas também com a qualidade
do produto, com os investimentos em pesquisa e desenvolvimento,
com o nível da gestão.
O
PIMS e a participação no mercado
A
criação do banco de dados PIMS em meados da década de 70 contribuiu
de maneira decisiva para a legitimação da análise estatística no
planejamento estratégico e, como conseqüência disto, aumentou o
número de profissionais qualificados e com conhecimentos analíticos.
O PIMS destacou também a importância fundamental do poder do mercado
em seu conjunto a expensas de outros possíveis indicadores do êxito,
como um espaço de mercado firme, uma longa história de rentabilidade,
ou uma gama única e sinérgica de produtos.
À
medida que os analistas acumulavam experiência na utilização do
PIMS, extraíam-se lições cada vez mais precisas, sofisticadas e
úteis. Verificou-se, por exemplo, que a participação no mercado
era de importância crucial em indústrias maduras ou de bens de consumo,
ao passo que o investimento em pesquisa e desenvolvimento era fundamental
nas indústrias jovens. A qualidade do produto, por seu lado, era
uma variável importante em si mesma.
Nos
primeiros anos da década de 70, contudo, ainda não se adivinhava
com clareza a conclusão mais sutil do modelo PIMS: a influência
de uma variável-chave - a participação no mercado - no êxito de
uma unidade estratégica de negócio, medido em função do rendimento
do investimento.
As
novas contribuições
A
utilização de unidades estratégicas de negócio, ou de seus equivalentes,
a aplicação de técnicas quantitativas ou de modelagem, como o PIMS,
e o emprego de diferentes modelos de carteiras estratégicas eram
os traços mais salientes do planejamento estratégico no fim da década
de 70. Todos eles, em maior ou menor grau, tinham uma grande limitação:
discriminavam, implicitamente, a favor do tamanho e do predomínio
do mercado. A unidade de negócio era particularmente útil quando
podia ser agrupada conceitualmente com outras unidades da empresa;
o banco de dados PIMS destacava a importância que a participação
no mercado tinha no êxito da estratégia; a carteira estratégica,
quase por definição, se adaptava às grandes empresas com atividades
em diferentes setores. Como se vê, todos estes enfoques tendiam
a ignorar os possíveis benefícios dos vazios de mercado, a eficiência
ou as vantagens da pequena dimensão.
Mais
ainda, por toda parte havia indícios de que a grande dimensão de
uma empresa não era o único caminho para alcançar o êxito. Algumas
empresas competiam com notável êxito com base num produto único,
uma marca comercial ou uma estratégia de espaços de mercado, como
a Hewlett-Packard (informática), a Mercedez-Benz (carros), a Stihl
(motosserras), a ASEA (robôs), entre outras.
O
planejamento estratégico enamorou-se cegamente da grande dimensão
para poder tratá-la eficazmente. Pelos fins dos anos 70, produziu-se
um novo desenvolvimento conceitual através da teoria microeconômica
e da teoria da organização industrial. A perspectiva destas disciplinas
baseava-se mais na indústria em seu conjunto do que num enfoque
a nível de uma empresa ou de uma unidade estratégica de negócio.
Portanto, era possível identificar o comportamento inerente a uma
empresa num setor industrial e utilizá-lo, então, no processo de
tomada de decisões estratégicas.
A
contribuição de Porter
A
obra de Michael Porter ilustra bem as contribuições do novo enfoque.
Esse autor começou defendendo a necessidade de uma "análise
estrutural" da indústria, identificando seus atributos como
barreiras para a entrada, barreiras móveis, ameaças dos competidores,
e ameaças dos fabricantes de produtos substitutivos. Essa análise
da indústria era ao mesmo tempo ambígua e útil: sua ambigüidade
residia na seleção dos atributos mais importantes a serem levados
em consideração (a escolha dependia tanto do ambiente da empresa,
quanto do meio competitivo); sua utilidade estava no fato de obrigar
o planejador a considerar quais as características mais importantes.
Em outras palavras, fomentava a flexibilidade.
A
seguir, Porter definiu três estratégias "genéricas" possíveis:
liderança de baixo custo, diferenciação e enfoque. A liderança de
baixo custo era, essencialmente, uma variante da via PIMS - carteira
estratégica para o êxito. Sublinhava as vantagens da participação
no mercado, a dimensão e as poupanças nas economias de escala. A
diferenciação e o enfoque, por seu lado, ofereciam outras alternativas
estratégicas viáveis: punham em evidência as vantagens de dar atenção
aos vazios de mercado ou grupos de produtos específicos. Ao oferecer
vias alternativas para alcançar o êxito na estratégia, Porter e
seus colegas promoveram a análise das escolhas estratégicas e ofereceram
aos executivos encarregados de tomar decisões estratégicas novos
graus conceituais de liberdade.
Contudo,
os benefícios desta perspectiva mais flexível foram além da simples
determinação de estratégias genéricas possíveis. Uma vez que se
havia considerado uma indústria sob o prisma de diversas estratégias
genéricas, era possível reestruturá-la para efeito de planejamento.
Porter ofereceu uma via para levar a cabo esta reestruturação conceitual:
os grupos estratégicos. Esta concepção, certamente a mais importante
e criativa de suas idéias, marcaria a etapa final da "idade
de ouro".
Os
grupos estratégicos
Um
grupo estratégico é um conjunto de empresas numa indústria que adotam
estratégias iguais ou semelhantes seguindo um conjunto de dimensões
estratégicas, geralmente duas, como uma matriz de dupla entrada.
Essas dimensões: pertencer a categorias como linhas de produtos,
integração vertical alta ou baixa, especialização, identificação
de marca, marketing de promoção ou de atração, seleção de canais,
qualidade do produto, liderança tecnológica, política de fixação
de preços, serviços, etc.
Para
a alta direção, é muito útil poder considerar a empresa na perspectiva
dos grupos estratégicos, o que lhe permite analisar novas idéias
e descobrir oportunidades ou ameaças previamente ocultas.
As
contribuições da teoria da organização industrial para a estratégia
empresarial ocorreram no final da era de ouro. Seus enfoques completaram
e ajudaram a resolver alguns dos problemas associados às primeiras
técnicas analíticas, como o PIMS e a carteira estratégica. Mais
ainda, estes últimos desenvolvimentos significaram uma nova oportunidade
de criatividade e flexibilidade na hora de determinar a estratégia
da empresa.
Como
havia acontecido com a divisão e a unidade estratégica de negócio,
os grupos estratégicos constituíram um guia útil para agrupar o
meio externo competitivo; na realidade, é possível agrupar tanto
o meio externo como o interno. Como vimos, tanto as inovações macroestruturais
como as microestruturais aconteceram na década de 70.

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A
utilidade dos grupos estratégicos
Um
recente estudo da National Academy of Sciences sobre a indústria
americana de máquinas-ferramenta ilustra a utilidade do conceito
dos grupos estratégicos. O objetivo original do estudo consistia
em explorar as possíveis maneiras com que o Departamento de
Defesa poderia contribuir para o rejuvenescimento desse setor.
Por conseguinte, partia-se de um setor considerado em dificuldades.
As diferentes representações gráficas que comparavam o grau
de sofisticação do apoio ao cliente com a relação entre a
tecnologia mecânica e a tecnologia mecânica integrada com
a informática, ofereceram uma nova visão do setor: a expressão
"máquinas-ferramenta" mostrou ser muito limitada,
devendo-se considerar, pelo contrário, a "tecnologia
de produção" em seu conjunto. Com base nesta perspectiva
mais ampla e no modelo dos grupos estratégicos, o relatório,
publicado no início de 1984, apresentava um conjunto cambiante
e vigoroso de grupos estratégicos. Em lugar de revelar uma
indústria moribunda e em situação crítica, a formação de grupos
estratégicos mostrou um quadro diferente e mais realista:
tratava-se de uma indústria dinâmica e em processo de reestruturação.
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No
final dessa década, os aspectos analíticos da estratégia já haviam
sido desenvolvidos em sua totalidade e sua aceitação era crescente.
As pesquisas mostravam que 35% das 1.000 empresas listadas pela
revista americana Fortune aplicavam algum método de carteira estratégica
e que 75% das empresas diversificadas de tal categoria utilizavam
essas técnicas. As escolas de administração de empresas começavam
a produzir grande quantidade de executivos profissionalmente capacitados
e peritos em métodos analíticos. Muitas empresas criaram seus próprios
staffs de planejamento. Outra das causas que explicam a grande acolhida
que os conceitos de planejamento estratégico formal receberam foi
a agressiva política de marketing das empresas consultoras de estratégia:
com efeito, este setor tinha experimentado um boom de crescimento,
como conseqüência do qual havia nascido uma indústria baseada nos
novos desenvolvimentos teóricos. Desta forma, transferiam-se eficazmente
os conhecimentos técnicos do mundo acadêmico para as empresas consultoras
e destas para a indústria. Assim, se havia constituído um novo setor
de serviços para ajudar as empresas a desenvolver estratégias ou
sistemas de apoio estratégico.
A
eclosão de um novo conceito
Um
dos mais importantes desafios a serem enfrentados pelos altos executivos
das grandes empresas era a tomada de decisões eficazes para enfrentar
a crescente complexidade proveniente de um conjunto de dimensões
relacionadas entre si. Cada um dos avanços nos métodos e no desenvolvimento
teórico do planejamento estratégico significava, em certa medida,
uma melhoria para enfrentar os problemas e as oportunidades inerentes
à atividade em diversas áreas de produto-mercado. A estratégia de
diversificação, a divisionalização, a unidade estratégica de negócio,
a carteira estratégica e os grupos estratégicos eram inovações que
permitiam teorizar e tirar proveito da diversidade.
Na
década de 80, porém, ainda se levantavam problemas estratégicos
fundamentais, especialmente nas áreas de inovação tecnológica, no
desenvolvimento de novos produtos e na entrada em novos mercados.
As grandes companhias americanas pareciam extremamente desarmadas
em comparação com as pequenas empresas de alta tecnologia do país,
ou com as empresas japonesas em geral. Em termos gerais, os modelos
de desenvolvimento tecnológico do pós-guerra haviam evoluído.
O
primeiro deles era o processo de inovação tecnológica das grandes
empresas, que se iniciava no laboratório central, passava pela divisão
de investigações e desenvolvimento aplicado e, finalmente, chegava
à produção e difusão no mercado. Esse processo era longo, freqüentemente
formal, e incluía uma série de alternativas complexas. O método
global levou particularmente à inovação incremental.
O
segundo modelo, conhecido como modelo de Silicon Valley, foi mais
espetacular do que o anterior e constituiu um fenômeno novo e importantíssimo
na história industrial dos Estados Unidos. Sua base era o empresário
disposto a assumir riscos, que criava uma pequena empresa para produzir
e comercializar inovações tecnológicas. Até 1980, ambos os modelos
coexistiram de forma competitiva ou como fornecedores de componentes
e de pessoal qualificado. Mas, com o fim da era de ouro da estratégia,
a situação modificou-se radicalmente.
Isso
obedeceu ao advento da simultaneidade, conceito que se reveste de
importância sempre maior. Este aspecto da estratégia é, ao mesmo
tempo, uma perspectiva e uma inovação estrutural específica: é a
decisão explícita de dirigir de forma sincronizada modelos de gestão
diferentes, e talvez contraditórios. Em certo sentido, refere-se
a uma empresa que opera em diferentes dimensões. A simultaneidade
reflete uma realização que, per se, seria contraproducente, mas
que ao ser simultaneamente off line e on line oferece maiores probabilidades
de êxito a longo prazo no meio competitivo complexo.
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O
desenvolvimento da simultaneidade
O enfoque de "Objetivos, Estratégias, Táticas" (Objectives,
Strategies, Tacties - OST) da Texas Instruments, elaborado
na década de 60, constitui-se num exemplo de simultaneidade.
Do mesmo modo que a General Eletric, aquela companhia desenvolveu
uma variedade de megamatriz para a direção geral. Um de seus
eixos, chamado Centros de Clientes e Produtos, refletia as
atividades em curso; o outro concentrava-se nas questões estratégicas
a longo prazo, segundo o sistema hierárquico OST.
A Texas Instruments estabeleceu um conjunto dual de sistemas
de apoio à direção, conhecido como o enfoque de "dois
chapéus", e mais adiante criou um método off line, chamado
IDEA, para estimular as inovações. Contudo, viu-se diante
de sérios problemas competitivos, no início dos anos 80, particularmente
na área de bens de consumo, que se encontrava sobrecarregada
de estruturas e sistemas. Certamente, a simultaneidade tinha
sido levada muito longe.
A lição a tirar da experiência da Texas Instruments é que
os processos de ação diretiva não podem ser aplicados universalmente,
ao longo e ao largo da empresa. É preciso selecionar cuidadosamente
as partes às quais se aplicarão estas medidas sofisticadas
e complexas.
No início dos anos 80, a área mais favorecida pela simultaneidade
foi a estratégia tecnológica. As grandes empresas começaram
a definir modelos para aproveitar algumas das vantagens das
pequenas empresas de alta tecnologia, como o espírito empresarial,
a capacidade de assumir altos riscos, e a rápida reação ao
mercado: criaram-se grupos internos para novas aventuras empresariais,
companhias filiais independentes ou unidades corporativas,
acentuou-se a participação nas empresas de alta tecnologia,
e fundaram-se empresas em participação. Assim, a IBM criou,
por exemplo, certas unidades corporativas independentes, nas
áreas da robótica, da automação de fábricas e dos computadores
pessoais (cuja linha foi completamente desenvolvida à margem
de seus projetos gerais de pesquisa e desenvolvimento).
Na emergente indústria da biotecnologia, Monsanto também adotou
este mesmo enfoque: estabeleceu participações em igualdade
e acordos de pesquisa com várias empresas pequenas. Executa,
ainda, um programa interno de desenvolvimento de biotecnologia.
A simultaneidade oferece à direção novos graus de liberdade
mas, como bem mostra a experiência da Texas Instruments, também
aumenta o peso das cargas.
No início da década de 80, a idade de ouro da estratégia chegava
ao seu fim. A disciplina era cada vez menos monolítica, mais
pragmática, mais eclética e repousava nas indústrias ou operações
empresariais específicas. A atenção voltava-se para a aplicação,
a cultura, a tecnologia e a concorrência a nível mundial.
Não se rejeitavam os enfoques desenvolvidos durante a idade
de ouro, que eram modificados e adaptados às situações específicas.
As novas idéias e críticas aumentavam a utilidade do planejamento
estratégico. Se em meados da década existe menor confiança
na direção estratégica profissional, certamente há maior sofisticação,
flexibilidade e amplitude de visão no terreno da estratégia
empresarial, em seu conjunto.
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HORWITCH,
Mel. A estratégia empresarial. Administração de empresas, São Paulo
: Nova Cultura, 1986. |